A corrida da Europa para criar sua própria DeepSeek

A Europa busca independência tecnológica em IA para reduzir a dependência dos EUA. Conheça os desafios e os projetos que buscam a soberania digital.
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Resumo Rápido:

  • A Europa está acelerando o desenvolvimento de modelos de IA nativos para garantir soberania tecnológica e reduzir a dependência de gigantes americanas.
  • O sucesso da DeepSeek na China provou que design inteligente pode superar a força bruta de processamento, inspirando laboratórios europeus.
  • Este movimento é essencial para governos, empresas e desenvolvedores que buscam alternativas seguras e independentes no cenário geopolítico atual.

Você já sentiu que estamos vivendo em um mundo onde, se os Estados Unidos espirrarem, a tecnologia global pega um resfriado? Pois é, essa é a sensação incômoda que muitos líderes e pesquisadores europeus estão sentindo agora. Por décadas, o Velho Continente assistiu ao domínio das Big Techs americanas — Google, Meta, Microsoft e OpenAI — com uma mistura de admiração e resignação. Mas o jogo mudou.

O surgimento da DeepSeek na China foi o “momento Sputnik” da nossa era. Ela provou que não é preciso ter um oceano de chips da Nvidia para bater de frente com os modelos mais poderosos do mundo. Agora, a Europa quer o seu próprio momento de glória. Como redator aqui na UzTech, acompanho essa movimentação de perto e posso dizer: a corrida para construir a “DeepSeek da Europa” não é apenas sobre tecnologia, é sobre sobrevivência política e econômica.

O fim da ilusão e a necessidade de soberania

Durante muito tempo, a narrativa predominante era que a inovação acontecia no Vale do Silício e o resto do mundo apenas consumia. Em janeiro de 2026, o chefe da organização nacional de cibersegurança da Bélgica chegou a dizer ao Financial Times que a Europa “perdeu a internet” e deveria aceitar sua dependência da infraestrutura dos EUA. É uma pílula difícil de engolir, não acha?

No entanto, aceitar a derrota não está nos planos de todos. Com o aumento das tensões diplomáticas e a postura mais rígida da administração Trump em relação a tarifas e regulação de tecnologia, a dependência europeia de modelos de IA americanos passou de uma conveniência para um risco estratégico. Se a IA é a infraestrutura do futuro, depender totalmente de um fornecedor estrangeiro que pode usar isso como alavanca em negociações comerciais é, no mínimo, perigoso.

O efeito DeepSeek: inteligência sobre força bruta

O que a DeepSeek fez foi quebrar um dogma. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que quem tivesse mais GPUs (os processadores gráficos da Nvidia) ganharia a corrida da IA. A DeepSeek mostrou que um design de modelo criativo e eficiente pode entregar resultados de ponta gastando uma fração do que a OpenAI ou o Google gastam.

Para os laboratórios europeus, que muitas vezes operam com orçamentos mais enxutos que os gigantes da Califórnia, isso foi um sinal verde. “O progresso neste campo não dependerá mais, em grande parte, dos maiores clusters de GPU”, afirma Wolfgang Nejdl, diretor do L3S Research Center na Alemanha. A ideia agora é ser inteligente, não apenas grande.

Projetos que estão liderando a resistência europeia

Vários projetos já estão saindo do papel com o objetivo de criar modelos de linguagem (LLMs) que falem as línguas nativas da Europa e respeitem seus valores de privacidade e ética. Não estamos falando apenas de tradução, mas de modelos treinados com nuances culturais e jurídicas locais.

ProjetoFoco PrincipalDiferencial
SOOFIModelo de uso geralCódigo aberto e foco em eficiência (100 bilhões de parâmetros).
ApertusSoberania de dadosDesenvolvimento transparente e colaborativo entre nações.
GPT-NLLíngua HolandesaModelo otimizado para contextos específicos dos Países Baixos.

O projeto SOOFI, em particular, tem ambições altas: colocar no mercado um modelo competitivo de 100 bilhões de parâmetros dentro do próximo ano. Eles querem ser, literalmente, a “DeepSeek europeia”.

O trunfo do código aberto contra o jardim murado

Se as empresas americanas como a OpenAI e a Anthropic são conhecidas por seus “jardins murados” — onde quase nada se sabe sobre os dados de treinamento ou a arquitetura interna — a Europa está apostando no oposto. A estratégia é o desenvolvimento aberto.

Ao publicar modelos que qualquer pessoa pode usar, modificar e melhorar, os laboratórios europeus esperam criar um efeito de rede. É como se, em vez de um único chef guardando uma receita a sete chaves, tivéssemos uma cozinha comunitária onde todos contribuem para o melhor prato possível. Isso não só acelera a inovação, mas também cria confiança, algo essencial quando falamos de tecnologias que vão decidir desde diagnósticos médicos até políticas públicas.

A geopolítica como combustível

Não dá para ignorar o elefante na sala: a relação estremecida entre a Europa e os EUA. Conflitos sobre a regulação da plataforma X (de Elon Musk), multas pesadas aplicadas pela Comissão Europeia e ameaças de retaliação comercial tornaram a “soberania digital” o termo da moda em Bruxelas e Londres.

Imagine que você é um negociador europeu tentando discutir um acordo comercial enquanto toda a sua infraestrutura de IA roda em servidores de uma empresa que o governo americano pode controlar ou restringir. Você já começa a conversa em desvantagem. Ter uma alternativa doméstica não é apenas “legal”, é uma ferramenta de barganha política.

O que falta para a Europa vencer essa corrida?

Apesar do otimismo, o caminho é íngreme. O mercado de tecnologia costuma seguir a regra do “o vencedor leva tudo”. Se o ChatGPT ou o Claude continuarem a ser significativamente melhores que as opções europeias, as pessoas e empresas continuarão usando o que funciona melhor.

Existem duas frentes de pensamento sobre como resolver isso:

  • Incentivo à compra: Alguns defendem que empresas europeias deveriam ser incentivadas (ou até obrigadas) a comprar IA de fornecedores locais, garantindo que esses laboratórios tenham receita para continuar inovando.
  • Soberania como escolha: Outros acreditam que a soberania significa apenas ter a opção de escolher. Se houver um competidor europeu forte, as empresas americanas terão que baixar preços ou melhorar serviços para manter o mercado.

Concluindo…

A corrida para construir a DeepSeek da Europa é uma jornada de autodescoberta tecnológica. O continente percebeu que não pode mais ser apenas o “regulador do mundo” enquanto outros constroem as ferramentas. Com projetos como o SOOFI e uma aposta forte no código aberto, a Europa está tentando provar que a inovação não tem um único endereço postal. Se eles vão conseguir alcançar a OpenAI ou a DeepSeek original, só o tempo dirá, mas o despertar para a soberania digital já é uma vitória por si só.

O que você acha deste conteúdo? Você acredita que a Europa consegue criar uma IA capaz de desbancar os gigantes americanos? Compartilhe sua opinião nos comentários!

FAQ

O que é a DeepSeek da Europa?

É um termo usado para descrever o esforço de laboratórios e governos europeus para criar modelos de inteligência artificial altamente eficientes e independentes, inspirados no sucesso da empresa chinesa DeepSeek.

Por que a Europa quer sua própria IA?

O objetivo principal é a soberania tecnológica. Isso reduz a dependência de empresas americanas, protege dados dos cidadãos europeus e evita que a tecnologia seja usada como pressão política em negociações internacionais.

Vale a pena investir em modelos de IA de código aberto?

Sim. O código aberto permite uma colaboração global, maior transparência e segurança, além de evitar que uma única empresa tenha o monopólio sobre uma tecnologia tão fundamental quanto a inteligência artificial.

Como funciona a soberania digital na prática?

Na prática, significa que um país ou região possui a capacidade de desenvolver, controlar e manter sua própria infraestrutura digital (chips, servidores e softwares) sem depender exclusivamente de fornecedores estrangeiros.

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